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Sociedade Brasileira de Cardiologia responde discurso do Presidente Lula julho 3, 2010

Trecho do discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na
cerimônia de entrega a 573 municípios de 650 ambulâncias do Serviço de
Atendimento Móvel de Urgência – Rede Samu 192

Tatuí-SP, 25 de março de 2010

”Eu quero dizer, aqui, a vocês: quem quer que seja, quem quer que seja que seja presidente da República depois de mim, vai ter que discutir mais dinheiro para a Saúde. Não tem alternativa, não tem alternativa. Não é possível fazer Saúde neste país sem dinheiro, custa caro, custa caro.

E os prefeitos do interior sabem: para levar um médico para uma cidade do interior, às vezes eles querem cobrar o dobro do salário que eles ganham na cidade. Às vezes…

Não sei você sabe, Temporão, tem prefeito que está querendo contratar médico, eles estão pedindo [R$] 30 mil, [R$] 20 mil por mês. Ora, o prefeito não pode levar. Então, nós vamos ter que formar uma geração de médicos mais à esquerda, para poderem cobrar um pouco menos de salário, para poderem trabalhar nas prefeituras do interior deste país.

E tem gente que reclama quando algumas cidades resolvem trazer médicos cubanos. E depois, os coitados dos nossos meninos que vão estudar em Cuba, eles voltam formados em Medicina, querem trabalhar aqui no Brasil, não deixam. Você sabe disso, a briga que a gente tem porque o Conselho  Nacional de Medicina não reconhece. Agora algumas universidades estão  reconhecendo e essa meninada está prestando serviço, sobretudo nas regiões onde não tem médico. É muito fácil ser médico na Avenida Paulista, ser lá na Marechal Deodoro, em São Bernardo, ser na Avenida Copacabana. Eu quero ver é no meio do brejo, onde mora o povo brasileiro, nos rincões do sertão deste país, na grande periferia das cidades brasileiras.”  

Luiz Inácio Lula da Silva –  Presidente da República Federativa do Brasil


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Carta da Sociedade Brasileira de Cardiologia

Porto Alegre, 02 de abril de 2010

Ao
Excelentíssimo Senhor
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva

Prezado presidente,

A Sociedade Brasileira de Cardiologia vem externar sua decepção pelas palavras divulgadas pela imprensa e atribuídas a V. Excia. durante a solenidade de entrega de ambulâncias em Tatuí, quando teria criticado a classe médica em geral. A SBC também se solidariza com o presidente
da Associação Médica Brasileira que, em nome de 350 mil médicos brasileiros, fez um desagravo aos profissionais atingidos em sua dignidade e honradez pelas referidas declarações, tão estranhas, que temos dúvida se a imprensa reproduziu fielmente suas palavras.

Em nome dos 12 mil cardiologistas brasileiros, grande parte dos quais exercendo a profissão em cidades pequenas, mesmo em povoados às margens dos rios amazônicos, distantes dos grandes centros, com poucos e antiquados equipamentos e, mesmo assim, salvando vidas, a SBC vem
lembrar que o esforço de seus associados está levando o País em anos recentes a reduzir o número de mortes por causas cardiovasculares que, até há pouco, roubavam 315 mil vidas de brasileiros a cada ano.

Esses cardiologistas que trabalham em todos os rincões brasileiros, senhor presidente, é que garantem o eficiente e rápido tratamento de uma crise de hipertensão, como a que afetou o presidente da República no Nordeste brasileiro e são eles que, em campanhas como a que se desenvolve neste momento, difundem informação sobre fatores de risco como a hipertensão, o tabagismo, a obesidade, para que no futuro os brasileiros não passem por crises semelhantes à que atingiu V. Excia. São esses médicos que, recebendo pouco do SUS, muitas vezes não tem recursos para acompanhar os congressos internacionais onde são apresentados os avanços da Medicina. Esse é o motivo que os leva a se valerem da Internet para a “Educação Continuada” oferecida por essa Sociedade, para que no Brasil inteiro os pacientes sejam atendidos por uma Cardiologia de ponta, por médicos tão capacitados como os dos países desenvolvidos.

E é por causa do intenso esforço, dos seis anos de estudo, somados aos de residência médica, aos quais se acrescenta toda uma vida de atualização, frequentemente de pesquisa, que os cardiologistas exigem que médicos formados em cursos como os de Cuba passem por exames que demonstrem serem tão capazes como os profissionais formados no território brasileiro. Não estamos defendendo nossa categoria com essa exigência, presidente, mas sim buscando a garantia de que os pacientes brasileiros sejam atendidos por profissionais efetivamente capacitados.

Pedimos vênia para lembrar mais que, se hoje milhares de cardiologistas trabalham em cidades onde não se conta com recursos de tomografia computorizada, de ressonância magnética, laboratórios nem salas cirúrgicas adequadas, senhor presidente, não é culpa dos médicos e nem da falta da CPMF, imposto que, tendo vigorado por vários anos, não foi empregado para sanar as mais evidentes lacunas da Saúde nas cidades pequenas, ao contrário do que desejava quem o propôs, justamente um cardiologista.

Os “médicos da Avenida Paulista”, criticados por V. Excia, são os mesmos que, a cada dia, atendem milhares de pacientes pobres, vindos de cidades distantes em incontáveis ambulâncias das Prefeituras, que chegam a formar fila nas estradas, de madrugada, trazendo pacientes em busca da ajuda médica que a cidade grande oferece e com a qual não contam em suas cidades de origem, e não por culpa dos profissionais da Saúde.

Num País em desenvolvimento como o nosso, em que são limitados os recursos para a Saúde e escassas as verbas para comprar o aparelhamento mais moderno, é simplesmente natural que se formem umas poucas instituições de excelência, altamente equipadas, para onde migram os pacientes das regiões próximas.

Esse fenômeno é conhecido e foi vivido por V. Excia. quando, para seus exames e testes, que necessariamente tem que ser os mais completos possíveis, pela importância de sua pessoa, os médicos que o atendem fazem com que o presidente da República deixe Brasília e frequente dois hospitais, o Incor e o Sírio Libanês, situados, justamente, no entorno da avenida Paulista, citada jocosamente por V. Excia como o local “onde é fácil ser médico”.

Garantimos, ao contrário, que jamais foi fácil ser médico no nosso País, onde a Medicina continua tendo conotação de sacerdócio, principalmente para o crescente número de profissionais que depende para sua sobrevivência, dos seguros-saúde. Ainda agora as Sociedades médicas lutam e sozinhas, para conseguir que essas empresas que ganham importância diante da falha da Saúde Pública, sejam levadas a pagar uma contrapartida pelo menos digna a quem dedicou sua vida ao exercício da Medicina.

Atenciosamente,

Jorge Ilha Guimarães

Presidente da SBC

Fonte: SBC

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