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A Obturação julho 26, 2010

Filed under: Sem categoria — lahad @ 12:30 am
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Quando você se submete a ser plantonista em um pronto-socorro, necessariamente você se perguntará inúmeras vezes: o que é que estou fazendo aqui? A quantidade de pessoas que se deslocam de suas casas para ir ao hospital sem um motivo realmente digno é impressionante. Gosto de imaginar as horas que antecedem a chegada de determinados pacientes, ainda no aconchego de seus lares:

– (Marido, às 11 horas da noite) Meu amor, se apronte, temos que ir ao pronto-socorro!

– O que houve, querido?

– Acabo de ter um episódio de evacuação pastosa! Precisamos ir para que eu possa saber o que está ocorrendo!

– É, minha vida, realmente deve ser grave!

Imagine se todas as pessoas, ao perceberem que as fezes amoleceram, resolvessem ir ao hospital no primeiro (e muitas vezes único) episódio evacuatório! Não haveria pronto-socorro que chegasse no mundo. Porém, no exemplo acima (verídico, diga-se de passagem), ainda apresentava uma queixa orgânica. O caso que relatarei agora é interessante, tanto pela queixa principal, quanto pelo método investigatório utilizado pelo paciente em questão.

Eu trabalhava em um hospital privado altamente conceituado na cidade de São Paulo, local de atendimento apenas para pacientes de alto poder aquisitivo, que possuem excelentes convênios ou que têm capital suficiente para arcar com uma consulta particular. Nesse ínterim, estava eu de plantão em um sábado à tarde, quando me deparei com a seguinte ficha de atendimento:

* Carlos Afonso, 60 anos, PARTICULAR*

Chamei o paciente no consultório. Adentrou um senhor de quase 1,90m, grisalho, perfumado, trajando camisa da Lacoste, voz grave e bem empostada, como a de um comentarista de finanças do Jornal da Globo. Iniciamos o diálogo:

– Boa tarde, seu Carlos. Tudo bom com o senhor?

– Boa tarde, Dr. Bomfim. É um prazer conhecê-lo.

– O que traz o senhor aqui?

Iniciou-se então um dos diálogos mais bizarros que eu já participei:

– Doutor, é o seguinte: engoli a minha obturação. Isso já faz cinco dias. O problema é que ela não sai, e eu quero saber onde ela está!

– Mas o seu intestino parou de funcionar?

– Não doutor, evacuo duas vezes ao dia fezes bem formadas, em quantidade mediana, de consistência normal (juro que a descrição do bolo fecal foi elaborada com tal riqueza de detalhes!).

É nessas horas que é melhor não ser curioso, mas isso não combina com a profissão;

– Mas seu Carlos, como o senhor sabe que a obturação ainda não saiu?

– Muito simples: desde que eu engoli a obturação, comecei a evacuar no chuveiro. Aí eu deixo a água morna cair nas fezes, e as desfaço com os pés, com todo o cuidado. Não deixei passar nada, e tenho certeza de que ela não saiu. Então quero fazer o exame mais sofisticado que for necessário, porque eu quero a obturação de volta!

– Mas homem, essa obturação com certeza não vai trazer problemas ao senhor! Pra que tanta mão de obra?

– É porque ela é muito cara, e eu quero colocá-la de volta.

– Como assim, de volta no dente? – nessa hora eu devo ter feito uma cara de nojo muito evidente, pois ele indagou:

– Que cara é essa, doutor, por que eu teria nojo? Isso sai do meu corpo, que tipo de preconceito é esse?

Nessa hora preferi não comentar que não me relaciono tão bem assim com os meus dejetos. Preferi apenas solicitar um raio x de tórax e de abdome.

Realizadas as radiografias, o veredicto – nem sinal de obturação. Mostrei os exames para o paciente, que desconfiado me indagou:

– Muito bem, vamos fazer uma tomografia então?

– Meu caro – respondi – o dinheiro é seu e você faz dele o que bem entender, mas não posso concordar com isso! A distância entre os cortes de uma tomografia é de 7mm, e a sua obturação não deve ter nem 5mm. É praticamente impossível achar esse troço, além de inútil, pois ninguém vai abrir o senhor atrás de uma obturação, a não ser que ela cause alguma complicação!

– Então o senhor me garante que ela não está mais dentro de mim?

– Garanto que ela não é visível nos raios x realizados, e possivelmente já foi expelida!

– Pois bem – respondeu visivelmente contrariado – vou continuar procurando em casa. Se eu encontrá-la meus advogados entrarão em contato com o senhor. Passar bem – virou as costas e foi embora.

Não sei por quanto tempo seu Carlos Afonso permaneceu com seu estranho ritual de tamisar fezes durante o banho atrás de um reparo de dente. Sei apenas que até hoje não fui acionado judicialmente para prestar esclarecimentos. Só rezo até hoje para que ele não resolva colocar um piercing de diamante em algum dente.

Antonio Bomfim Marçal Avertano Rocha
Cirurgião Oncológico do Hospital Saúde da Mulher – Belém, PA.

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