liga acadêmica de diabetes e hipertensão

Just another WordPress.com weblog

Como fazer um bom médico? abril 14, 2010

Filed under: Como fazer um bom médico? — lahad @ 3:22 pm

Como fazer um bom médico?

por Flavio José Kanter*

Nos anos em que lecionei na graduação de Medicina e orientei médicos residentes, uma preocupação constante era como ajudar a transformar principiantes em médicos. Minha convicção era de que eles tinham que aprender como se relacionar com as pessoas, dominar o processo de colher e organizar informações para definir problemas, como investigá-los, estudá-los e buscar soluções. Ou seja, tinham que dominar o processo. A informação estava disponível nos livros e revistas científicas. A internet tornou a informação ainda mais acessível. Mas quando chegava o momento de avaliar o processo educativo, as provas de medida de conhecimentos preponderavam e, em geral, preponderam ainda hoje.

O vestibular para ingresso nas faculdades continua calcado em provas de múltipla escolha. É esta a melhor maneira de escolher os futuros médicos? Eu não voaria num avião se soubesse que o piloto fosse considerado apto somente por ter sido aprovado num teste de múltipla escolha e apresentado um bom currículo, pesquisas publicadas, excelentes cartas de recomendação…

O New York Times de 14 de janeiro de 2010 publicou um artigo da Dra. Pauline W. Chen. Ela discute a questão do ingresso em escolas médicas nos Estados Unidos. Lá, em média, 42 mil candidatos altamente qualificados disputam 18 mil vagas a cada ano. E o que usam para fazer a escolha? Currículo, cartas de recomendação e, com muito maior peso, um exame estandardizado cognitivo, que é exigido para admissão em todas as escolas de Medicina daquele país. Este exame tem papel crucial em definir quem entra e quem não entra em escola médica. Muito semelhante aos nossos vestibulares. Pergunta a Dra. Chen: “Isso garante que os candidatos selecionados irão se tornar os melhores médicos? Talvez não”.

Ela relata um estudo publicado recentemente por um grupo de pesquisadores europeus e americanos. Acompanharam mais de 600 alunos de Medicina na Bélgica ao longo de vários anos. Foi administrado teste de personalidade estandardizado, explorando cinco dimensões: capacidade de comunicação (extroversão), características neuróticas, franqueza (sinceridade), cordialidade e escrúpulos.

O estudo mostrou que a identificação destes eixos de personalidade serviu para prever o desempenho dos estudantes, reduziu diferenças étnicas e de minorias. O eixo da capacidade de comunicação foi individualmente o que melhor correlacionou com bom desempenho. Padrão neurótico foi o preditor de mau desempenho mais consistente. Ela observa que se uma escola quiser formar excelentes pesquisadores, as provas de conhecimentos seriam suficientes. Mas, naquelas que buscarem formar médicos para prestar assistência a pessoas, a avaliação padronizada de características de caráter do aluno poderia trazer uma nova dimensão, útil na escolha.

No futuro, deveremos caminhar para algumas outras medidas de capacidade para exercício da medicina e das outras profissões. Sair-se bem em testes de múltipla escolha prova que o candidato é bom em responder questões de múltipla escolha. E depois, na profissão?

O artigo da Dra. Chen conclui citando uma das autoras do estudo: “Quando pedes a amigos para te descreverem, eles o fazem em termos de tua personalidade. Raramente obténs uma descrição de tuas habilidades cognitivas. Personalidade é o que nos faz ser o que somos”.