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Residência Médica julho 26, 2010

Filed under: residencia médica — lahad @ 12:44 am
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Dedicação e perseverança são os pré-requisitos do curso de Residência Médica (RM). A especialização é considerada o padrão-ouro para a inserção de novos médicos na profissão, por ser um treinamento prático com supervisão de profissionais mais experientes. Durante essa fase, o médico residente tem a oportunidade de praticar o conteúdo da graduação e de obter experiência, com reconhecimento mundial. Contudo, também neste período, é necessário abdicar de atividades e adiar planos, devido à grande exigência nos estudos e à escassez de tempo.

Instituída no Brasil em 1977, a RM é reconhecida pelo Ministério da Educação como pós-graduação, em caráter lato sensu. Embora haja outros cursos de especialização, eles não oferecem ao profissional o mesmo reconhecimento que o título de RM. Esses outros cursos, semelhantes à residência, não permitem ao médico obter o registro de especialista juntamente aos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), tampouco acessar a pontuação em alguns concursos públicos.

A duração do curso de RM depende da especialidade e pode ser de dois a cinco anos, como são os casos de acupuntura e neurocirurgia, respectivamente. A carga horária prevista na lei 6.932 é de 60 horas semanais, incluídas 24 horas de plantão.

Neste período, considerado de extrema importância para o crescimento profissional do médico, deve haver grande preparo físico e psicológico, além de persistência e muito estudo. Raquel Volpato Bedone, 25 anos, residente de Clínica Médica, acredita ser necessário maior empenho dos residentes de medicina do que de especialistas de outras áreas. “Há disciplinas que exigem mais, como pronto-socorro, e outras que são mais tranquilas, como enfermaria. Mas, sem dúvida, a residência é muito mais difícil do que especialidades de outras profissões. Tenho um irmão advogado e outro engenheiro e sei que eles se dedicam aos estudos com maior flexibilidade”.

Apesar de não ser obrigatória para o exercício da profissão, é durante a residência que o médico, recém-aprovado no internato, adquire mais segurança e experiência. A responsabilidade nessa etapa é maior do que na graduação, pois o profissional já tem registro no CRM e autonomia para prescrever, além de acompanhar o progresso dos pacientes. De acordo com a secretária executiva da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), Maria do Patrocínio Tenório Nunes, a rotina de um residente é variável. “O treinamento varia de acordo com o programa que ele cumpre. Mas o trabalho é prático, prestando serviço à população, sob supervisão. De 10 a 20% do tempo devem ser destinados à atividade de reflexão teórica, fundamental para o embasamento e a atualização de condutas e procedimentos, bem como de ética e bioética”.

Além da responsabilidade de estudar e praticar a teoria durante a semana, os residentes, muitas vezes, precisam fazer horas extras de trabalho devido à demanda de serviço ou à necessidade de complementar a renda. “O valor da bolsa-residência, no Brasil, é muito baixo, e acabamos fazendo plantões em outros hospitais. Isso é o que é mais opressivo. Eu chego a fazer uma média de 100 horas de trabalho, por semana, para complementar o salário. Para mim, a residência é, sim, uma resistência”, conta a residente Luciana Bivanco de Lima.

Viviane Coelho, residente de Cirurgia Geral, acredita que, mesmo com as dificuldades encontradas na residência, ela é essencial à formação do médico. “É o momento de aprendermos na prática. Embora o internato já tenha essa função, precisamos adquirir responsabilidade sob o paciente e compromisso com os familiares. Saímos muito imaturos da faculdade e precisamos de vivência supervisionada. Em algumas especialidades, como a minha, principalmente por ser intervencionista, a residência é mais importante ainda”.

 

PROCESSO SELETIVO – No Brasil, segundo a CNRM, estimam-se cerca de 27 mil vagas para RM nos programas regularmente credenciados e mais de 50 especialidades diferentes. Ou seja, a concorrência é sempre acirrada, pois o número de vagas ainda é insuficiente para atender a quantidade de candidatos. O ano de preparação para o processo seletivo também costuma ser estressante e rígido para aqueles que pretendem ingressar nessa etapa: horas excessivas de estudo, análise de provas anteriores, cursos extras e atividades complementares são rotinas comuns e exaustivas a todos eles.

DESAFIOS – O volume de trabalho e a infraestrutura de atendimento à população são considerados alguns dos entraves do bom funcionamento da RM no país. “A desorganização dos serviços de saúde que sobrecarregam as instituições e comprometem com sobrecarga de horas de serviço, a inexistência de supervisão, ou a precariedade desta, são as grandes dificuldades enfrentadas pelo residente. Além da defasagem na estrutura, a diversidade socioeconômica muitas vezes interfere na adequada evolução clínica, tendo em vista que os problemas sociais antecedem e agravam as condições de saúde”, enfatiza Maria do Patrocínio.

A rotina de mais de 60 horas semanais de dedicação à medicina compromete as horas para dedicar-se à vida pessoal, com prejuízos de desenvolvimento social e emocional. Edison Ferreira de Paiva, professor-colaborador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), acredita que o custo-benefício seja válido, mesmo em meio ao desgaste. “É difícil o residente ter uma vida além do trabalho. A profissão exige uma grande preparação, mas esta é uma fase extremamente produtiva da formação do médico. O aprendizado está relacionado com a rotina de ler muito e de ter contato com o paciente. Fazer uma boa faculdade e depois uma boa residência faz toda a diferença”.

PSICOLÓGICO – O treinamento na RM é considerado bastante estressante, pelos psicólogos, principalmente durante o primeiro ano. “É um período de imersão com muitas horas de trabalho acompanhadas de experiências assistenciais habitualmente complexas, e existe o constante contato com situações novas. É também um momento de construção da identidade pessoal e profissional com muitas dúvidas, inseguranças e incertezas. Como, para ingressar em bons programas, há um concorrido e disputado exame de seleção, com alguma frequência se observam residentes com altas expectativas sobre o treinamento experimentarem vivências de decepção, revolta, frustração e depressão; além disso, o oficio é lidar com dor, sofrimento e morte, o que pode produzir fadiga e depressão”, analisa o coordenador do Núcleo de Assistência e Pesquisa em Residência Médica (NAPREME), da Universidade Federal de São Paulo, Luiz Antonio Nogueira Martins.

Existem várias medidas, apontadas pelo NAPREME, que podem e devem ser implementadas para melhorar o treinamento na RM. São exemplos: garantia da supervisão diuturna; extinção do regime de 36 horas contínuas de trabalho; instituição da folga pós-plantão; adequação do número de residentes à carga assistencial; valorização da preceptoria/criação de programas de tutoria;  garantia institucional de suporte de corpo auxiliar e equipamentos para o trabalho assistencial; criação de programas de atenção à saúde e qualidade de vida dos residentes;  criação de serviços de assistência psicológica e psiquiátrica aos residentes; realização pela Comissão de Residência Médica (COREME) de cada instituição de fóruns internos permanentes de avaliação dos programas de residência.

A questão da carga horária ideal é um tema extensamente debatido e estudado. Estudos realizados nos Estados Unidos têm mostrado que, havendo a garantia da implantação de várias das medidas já citadas, a carga horária semanal ideal para assegurar a excelência na capacitação profissional seria de 80 horas; esse valor é uma cifra de referência, porque se sabe que há variações quanto ao número de horas dedicadas nas várias especialidades, como a necessidade de um treinamento mais extenso e intenso nas especialidades cirúrgicas.

Apesar de todo o período de dificuldade, horas de vigília e problemas de ordem estrutural, a RM no Brasil ainda é apontada como complementação da formação médica e considerada um instrumento procurado, em seleções anuais, por médicos recém-graduados em todo o país.

DICAS – O primeiro ano de residência, em especial, tende a ser uma experiência muito desgastante. Os residentes devem, portanto, ser alertados sobre as dificuldades que encontrarão ao longo desse ano e estimulados a buscar ajuda junto aos preceptores, professores e coordenadores dos Programas.

Cumpre salientar a importância de que os futuros residentes sejam conscientizados e orientados no sentido de controlar sua voracidade. Habitualmente, o não-controle pode levá-los a tentar aproveitar ao máximo o tempo se sobrecarregando ainda mais com aulas, cursos, plantões e outras atividades; essas ações podem ter um efeito deletério para a saúde física e mental do residente e comprometer o aproveitamento e o desempenho das atividades na residência.

Tanto a natureza como a magnitude do estresse na RM têm sido amplamente estudadas na literatura internacional, destacando-se, em especial, sobretudo, o estresse psicológico. Aach e cols. (1988) descreveram o conjunto de estados ou fases psicológicas que um residente vive ao longo do primeiro ano de treinamento:

– Estágio inicial de euforia e excitação, que está associado ao estado de tensão vivido em relação à expectativa de iniciar o treinamento e ao desafio de ser um profissional (duração: cerca de 1 mês).

– Após esse estágio inicial, prossegue um período de insegurança, quando o treinando começa a vivenciar frustrações e perceber suas limitações (duração: mais ou menos 2 meses).

– A seguir, há uma fase de depressão, que se mostra tanto mais intensa quanto mais atuam os seguintes fatores: sobrecarga de trabalho, privação do sono e falta de apoio emocional institucional e/ou social.

– Em seguida, há um período de tédio. No período entre o quarto e o sexto mês de treinamento, o residente tende a experimentar um estado de quiescência, com estabilidade no exercício das atividades e um estado de tédio e desinteresse, realizando suas tarefas de uma forma automática.

– A esse estado de tédio, segue-se uma outra fase de depressão. A rotina torna-se insuportável, e o trabalho parece sem fim. Essa fase tende a ser mais intensa que a fase depressiva anterior, atingindo seu ápice no oitavo mês.

– Gradativamente, o residente começa a sair do estado de depressão, entrando em um período de elação, com o reconhecimento de conquistas e realizações. O estado de elação pode, eventualmente, conduzir a excesso de confiança.

– Fase de autoconfiança e competência profissional. Ao final do ano, o R1 vive uma fase de segurança, com sensação de competência profissional para tomar decisões quanto ao tratamento dos pacientes; sente-se em condições de ensinar e supervisionar os estudantes.

Embora essa sequência de estágios ou fases seja observada na maioria dos residentes no primeiro ano do treinamento, uma ampla gama de sensações – positivas, gratificantes, negativas, frustrantes – acompanha todos os momentos do treinamento. De maneira geral, os senti mentos disfóricos atingem seu ápice em torno do oitavo mês do treinamento.

A partir desse período, começa a prevalecer uma lenta e gradual sensação de autoconfiança e competência profissional. O segundo ano de residência tende a ser menos tumultuoso do que o primeiro e mais estressante do que o terceiro.

A tendência deste último é ser mais estável e gratificante, quando a maioria das dificuldades adaptativas vinculadas ao treinamento estão resolvidas. Ao final do terceiro ano, os residentes expressam satisfação com a decisão de ser médico e se sentem profissionalmente competentes (Girard e cols., 1986; 1991).

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