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Cem anos após publicação, relatório Flexner continua atual maio 22, 2010

Filed under: Relatório Flexner — lahad @ 1:52 am
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Edimilson Montalti Fotos: PérciclesLima Edição das imagens: Everaldo Silva

Naomar de Almeida Filho

“O Brasil é o último pais do mundo com algum grau de desenvolvimento em que a entrada na universidade se dá diretamente pela escolha da profissão. A graduação segue o modelo da escola francesa do século XIX e a pós-graduação segue o modelo da década 1990. Isso criou impérios dentro de impérios, principalmente nas escolas médicas. Flexner já denunciava isso há 100 anos. E como isso é atual nos dias de hoje!” Essa foi a afirmação do reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Naomar de Almeida Filho, durante a abertura do seminário “O relatório Flexner cem anos depois e suas repercussões no ensino em Saúde”, ocorrido no auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, na noite de segunda-feira (17).

Naomar destacou o prefácio do relatório Flexner, que ele chamou de “aperitivo” do documento publicado em 1910 por Abraham Flexner, a pedido da Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching, com apoio da Fundação Rockefeller. O relatório Flexner foi responsável pela mais importante reforma das escolas médicas de todos os tempos nos Estados Unidos da América (EUA), com profundas implicações para a formação médica e a medicina mundial. De acordo com o prefácio do relatório “por 25 anos, tem existido uma superprodução de médicos mal treinados e não educados. Essa superprodução de pessoas mal treinadas é devido, principalmente, por um enorme número de escolas comerciais sustentadas por métodos de publicidade, através dos quais, uma massa de jovens não preparadas é retirada das profissões industriais e jogada na área da medicina. Até recentemente, a condução de uma escola médica era um negócio rentável, porque o método é, principalmente, didático”. Para Noamar, a mercantilização do ensino médico nos Estados Unidos nessa época era impressionantemente e similar à situação brasileira nesse momento.

Naomar, Knobel, Gontijo e EverardoO jornal The New Times deu destaque ao relatório Flexner na edição de 24 de julho de 1910. O título da matéria foi “Fábrica para formar ignorantes”. Para o pró-reitor de graduação da Unicamp, Marcelo Knobel, a leitura da introdução do relatório mostra pontos de contato do passado norte-americano com o presente brasileiro. Como destaque, Knobel cita um trecho da introdução: “pelo fato dos alunos de medicina só aprenderem na prática, o custo de ensino não poderia ser mais suportado pelas pequenas escolas comerciais que se multiplicaram durante a segunda metade do século XIX, criadas com o objetivo de lucro por grupos de oito a dez professores”. Em 100 anos, 457 escolas médicas foram abertas nos Estados Unidos. No início do século XX, haviam 160, das quais Flexner considerava apenas 155 e que, na sua opinião, apenas  31 tinham condições de continuar funcionando. No Brasil, de acordo com dados do Ministério da Educação, o número de faculdades de medicina subiu de 82 para 161 no período de 1996 a 2010. “Este ano, o Ministério da Educação extinguiu 560 vagas em nove cursos médicos de baixa qualidade. Estes dados são preocupantes”, disse Knobel.

Para o diretor da FCM, José Antonio Rocha Gontijo, o relatório Flexner tornou a formação médica baseada no método científico e o hospital como local da prática do estudante, pois Flexner dizia que o “aluno de medicina só aprende fazendo”. A FCM adotava o modelo flexneriano até dez anos, quando ocorreu a revisão do currículo para se adequar às necessidades do Sistema Único de Saúde. De acordo com Gontijo, “o currículo é um processo contínuo que deve ser permanentemente discutido e aperfeiçoado. Este seminário talvez seja o estopim motivador para cada área repensar o seu processo de formação dentro da faculdade”.

Naomar apresentou em sua palestra os modelos norte-americano, latino-americano, europeu e brasileiro de ensino. O modelo europeu de ensino, baseado no tratado de Bolonha, de 1999, já é adotado em 45 países. No Brasil, a Ufba criou um novo modelo pedagógico, no qual os alunos escolhem áreas amplas com mobilidade de disciplinas e somente no terceiro ano decidem qual área do conhecimento vão seguir. “Ao invés de você reformular o que já existe, é melhor você criar algo novo. Estamos abertos ao diálogo. Precisamos sair dessa estrutura perversa do ensino atual”, concluiu Naomar.

“O relatório Flexner cem anos depois e suas repercussões no ensino em Saúde” foi organizado pelo Grupo de Estudos História das Ciências da Saúde da FCM, com o apoio da diretoria, departamentos, Comissão de Ensino e reitoria da Unicamp. O evento seguiu até o final desta tarde (18), com a entrega do prêmio de incentivo ao ensino de graduação “Prof. Dr. Miguel Ignácio Tobar Acosta”.

Sobre o relatório Flexner
Em 1910, foi publicado o estudo Medical Education in the United States and Canada – A Report to the Carnegie Foundation for the Advancement of Teaching, que ficou conhecido como o Relatório Flexner (Flexner Report). O Relatório Flexner é considerado o grande responsável pela mais importante reforma das escolas médicas de todos os tempos nos Estados Unidos da América (EUA), com profundas implicações para a formação médica e a medicina mundial. Flexner considerava a maioria das escolas médicas dos EUA e Canadá desnecessária ou inadequada. Ele fez planos e mapas pormenorizados, onde estabelecia o número, a alocação e a distribuição das escolas de medicina no Canadá e nos EUA. Em sua opinião, das 155 escolas existentes, apenas 31 tinham condições de continuar funcionando.

Nos 12 anos posteriores à publicação do Relatório, o número de escolas de medicina nos Estados Unidos caiu de 131 para 81. O número de escolas médicas homeopáticas diminuiu de 20 para 4 entre 1910 e 1920. Muitas se converteram ao modelo biomédico. A última escola de fisiomedicalismo foi fechada em 1911. Cinco das sete escolas para negros foram fechadas. A escola médica se elitizou e passou a ser frequentada pela classe média alta.

A produção do trabalho de Flexner permitiu reorganizar e regulamentar o funcionamento das escolas médicas, mas desencadeou um processo terrível de extirpação de todas as propostas de atenção em saúde que não professassem o modelo proposto. Mas teve como grande mérito a  busca da excelência na preparação dos futuros médicos, introduzindo uma salutar racionalidade científica, para o contexto da época. Mas, ao focar toda a sua atenção neste aspecto, desconsiderou outros fatores que afetam profundamente os impactos da educação médica na prática profissional e na organização dos serviços de saúde. Ele assume, implicitamente, que a boa educação médica determina tanto a qualidade da prática médica como a distribuição da força de trabalho, o desempenho dos serviços de saúde e, eventualmente, o estado de saúde das pessoas.

Esta visão ainda pode ser facilmente encontrada hoje. As necessidades de saúde são tomadas como o ponto de chegada e não como ponto de partida da educação médica. Mais além da situação específica dos EUA, a educação médica vinha sofrendo transformações importantes a partir da segunda metade do século XIX em todo o mundo. O modelo francês, que se irradiou com grande força de Paris para o mundo a partir de 1830, vinha sofrendo a influência do modelo de medicina e educação alemão. No modelo anatomoclínico francês, os estudantes aprendiam ao lado do leito do paciente e, nos anfiteatros anatômicos do hospital, treinavam as técnicas diagnósticas e terapêuticas e faziam pesquisas clínicas na faculdade de Medicina. Já o modelo de pesquisa médica alemã estava centrado no laboratório, na hierarquia, na especialização e nas pesquisas experimentais.

Quando Flexner assumiu um cargo permanente no General Education Board, em 1912, subvencionado por Rockfeller, amplou significativamente sua influência e controle sobre as instituições de ensino norte-americanas. Apoiado nos fundos da Rockfeller Foundation e mantendo a filantropia como instrumento para o desenvolvimento e apoio a instituições, sem necessitar de aprovação societária ou governamental mais ampla, Flexner conseguiu propagar suas ideias. Com este fim, a fundação Carnegie investiu US$ 300 milhões entre 1910 e 1930. Para a época representava uma quantia extraordinária.

Isso tudo tornou a tarefa de Flexner muito menos problemática do que em outros países, como o Brasil, por exemplo. Flexner e outros reformadores, como Silva Mello, no Brasil, em seus estudos na Alemanha, “perceberam que o mundo estava mudando e sentiram que podiam prover a visão que tornaria suas respectivas nações alinhadas com as novas tendências”. A suposta autopropagação e a originalidade das idéias de Flexner podem ter, portanto, diferentes interpretações. O que estava em jogo nesse embate e o que Flexner propunha era, na verdade, a reforma do sistema escolar como um todo, reforma essa que recebia o título mágico de universidade. É com este intuito e com esta visão que Flexner propôs o modelo alemão de educação médica e pesquisa para os Estados Unidos.

Cem anos depois, o modelo de ensino da medicina praticado nas universidades brasileiras é flexneriano, também chamado de modelo tradicional. O grande embate atual é a reformulação do currículo para um modelo focado na integralidade. Com o seminário “O Relatório Flexner cem anos depois e suas repercussões no ensino em saúde”, a FCM pretende contribuir para a discussão desse tema e avançar nas propostas para a reformulação do currículo dos cursos de medicina.

Fonte: UNICAMP

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